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SERENIDADE E PRESENÇA

             Lidia é uma mulher muito dinâmica, decidida e amorosa, tem sua vida financeira muito bem estabilizada, mas foi infeliz no amor algumas vezes e decidiu não arriscar mais.

 

             Os desencontros amorosos de Lidia não a transformaram em uma pessoa amarga, pelo contrário, decidiu que adotaria três filhos do coração. Quando resolveu adotar, imediatamente investigou uma boa entidade e foi visitar.

 

             Lidia ao chegar à casa onde as crianças moravam, apaixonou-se logo de cara por três meninos, quase da mesma idade: Raul tinha sete anos, e Marcelo e Pedro tinham oito anos, não eram irmãos, fisionomias diferentes.

 

             Ela era uma mulher muito prática, logo os papeis estavam prontos, assim como pequenas reformas na casa, colocou os três meninos na mesma escola. Lidia sentiu uma imensa onda de carinho pelos três meninos, havia dias que eles por serem diferentes brigavam, mas ela sabia que isto fazia parte, tinha acompanhamento psicológico para saber como lidar de maneira correta com os meninos.

 

meninos

 

             Os anos passaram, mas as brigas ficaram mais intensas principalmente entre Marcelo e Pedro, já eram adolescentes extremamente inteligentes, espertos, personalidade forte, mas a maior preocupação de Lidia era a falta de amor entre os irmãos, Raul tentava às vezes ser mais sensível. Ela, uma mãe preocupada, percebeu que jamais haveria uma afeição legítima entre os irmãos, da mesma forma eles não a tinham como mãe, o amor familiar, o carinho, a tolerância, existia somente da parte dela.

 

             Uma tardinha, que Lidia jamais esqueceria, quando os irmãos Marcelo e Pedro se chutavam, davam socos, e caiam no chão rolando e se socando. Raul por sua vez tentou separar os irmãos, ficando de costas para o mezanino e com um empurrão dos irmãos, foi jogado no piso abaixo, quebrando a coluna, e fraturas cerebrais, vindo à falecer.

 

             A policia e os investigadores constataram ser um acidente. O tempo passou, e o que mais doía em Lidia é que os irmãos não sentiam a falta de Raul, eles aceitaram como acidente e a vida continuou, quanto mais os irmãos estudavam, mais longe iam ficando um do outro, queriam ir muito além em suas carreiras. Mudaram de cidade, depois de países, foram tão longe em distância com o estudo, que Lidia tornou-se apenas quem mandava dinheiro.

 

             Chegou um momento que laços tão finos, sentimentos tão frágeis sumiram, eles tornaram auto-suficientes em questão monetária, Lidia era apenas uma mulher que os tirou de um lugar e nada mais.

 

             Os amigos de Lidia correram para lhe dar apoio, palavras de incentivo, ela ficava contente de ter bons amigos, e sua vida continuou.

 

             Em uma tarde, resolveu caminhar por sua propriedade, tomar ar puro, talvez colocar os pensamentos em dia, Lidia levou um susto quando olhou duas pequenas tigresas, ao lado de um córrego, sujas de sangue, dava para ver que tinham sido atacadas por outro animal. Lidia com medo da mãe, ia se afastando, quando olhou mais acima, viu que a mãe estava morta, talvez por ter lutado até a morte para salvar suas crias. Ela olhou para os filhotes e pensou: “não é problema meu, a natureza cuidará delas.”

 

             Lidia foi virando-se vagarosamente, ouvindo os lamentos dos pequenos animais feridos, mas se compadeceu e olhou para trás, retirou sua jaqueta e as enrolou, levando-as ao seu amigo veterinário. Ele examinou as pequenas e disse: ”uma ficou totalmente cega, a outra ficará boa.” Seu amigo veterinário, sabendo por tudo que tinha passado, a deixou cuidar dos animais até ficarem bem.

 

tigre

 

             Ela as levou para casa e pensou: “como vou chamá-las?” A que tinha ficado cega era a sombra de Lidia, aonde ia, ela estava atrás, colocando o nome de Presença, e a outra era calma e preguiçosa, ela chamou de Serenidade.

 

             Serenidade e Presença ficaram lindas, dormiam no quarto de Lidia. Como ela morava em uma fazenda, conseguiu autorização para manter as duas. Com o passar do tempo, elas formaram um trio.

 

             Lidia teve de reformar algumas coisas na casa, sua cama teve de ser king size, o sofá foi mandado fazer sob medida.

 

             A vida de Lidia mudou desde o dia que encontrou dois animais feridos, os curou, conheceu amor sem pedir nada em troca, carinho, atenção e cuidado. Os vizinhos comentavam que nada nem ninguém poderia fazer mal a Lidia, sem que Presença e Serenidade não estivessem junto, eram duas fêmeas, e Lídia falou que nunca elas brigaram, muitas vezes viu Serenidade lamber os olhos cegos de Presença.

 

             Como toda mortal, Lidia faleceu, seus filhos foram avisados mandaram entregar grandes coroas de flores, pediam desculpas por não poderem vir, os compromissos eram imensos.

 

             Serenidade e Presença ficaram o tempo todo ao lado do caixão, onde estava o corpo de Lidia, ela foi enterrada em sua própria fazenda, pedindo ao seu amigo veterinário que cuidasse das duas tigresas Serenidade e Presença.

 

             Lidia deixou um testamento, pedindo que sua fazenda fosse doada para abrigo de animais, e que seus dois bens mais preciosos fossem protegidos: “Serenidade e Presença”.

 

              “Lidia adotara seres humanos carentes de amor, cuidados, carinho, de uma família e aprendeu que adotou seres sem sentimentos, e na mata, lugar de animais, encontrou duas filhas, que a amaram, cuidaram e a protegeram. Lidia com certeza aprendeu que humanidade não é sinônimo de pessoa”.

 

 

             O homem perdeu a humanidade e os animais os suprem.

 

             Sofia Quadros.